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Essa influência também acontece pela assimilação entre os diferentes idiomas, que até hoje mantém tais palavras vivas no nosso vocabulário. Nos tempos de escravidão, os africanos trazidos ao Brasil não falavam o idioma do colonizador: para conseguirem se comunicar, misturavam as palavras que aprendiam à força por aqui aos seus idiomas nativos a ponto de tornarem algumas delas parte da norma – e hoje, muitas dessas palavras substituíram vocábulos da língua portuguesa.

Dificilmente passamos um dia sem empregar ao menos um verbo de origem africana. Quer ver?

Dengo: segundo os dicionários, a palavra significa 'lamentação infantil', 'manha', 'meiguice'. Contudo, a palavra de origem banta (atualmente Congo, Angola e Moçambique) e língua quicongo tem um sentido mais profundo e ancestral: dengo é um pedido de aconchego no outro em meio ao duro cotidiano.

Cafuné: também do quimbundo vem a palavra cafuné, que significa acariciar/coçar a cabeça de alguém.

Caçula: do quimbundo kazuli, que significa o último da família ou o mais novo.

Fubá: da língua banta quimbundo, é uma farinha feita com milho ou arroz. Feijão e angu – creme feito apenas com fubá e água – eram a base da alimentação dos africanos e afro-brasileiros. Hoje, vários pratos e quitutes são preparados com o ingrediente, sendo o bolo de fubá o mais querido entre os brasileiros.

Quitanda: do termo quimbundo kitanda, trata-se de um pequeno estabelecimento onde se vende produtos frescos, como frutas, verduras, legumes, ovos, etc.

Além dessas, outras palavras corriqueiras no nosso vocabulário também são de origem africana: cochilar, xingar, fungar, moleque, dendê, axé, candomblé, cachaça, muvuca, cuíca, abada e cachimbo são bons exemplos disso.

Muito além de mera curiosidade, há uma questão mais importante nisso tudo, ligada à reparação histórica a esses povos: as palavras de origem africana precisam ter suas origens reconhecidas e reportadas como contribuições para o vocabulário português para que, assim, possamos dar mais um passo para longe do racismo arraigado em nosso país.

Segundo Frei David Raimundo dos Santos, presidente da ONG Educafro (Educação e Cidadania de Afro-descendentes e Carentes) em entrevista para o site Babbel, ao lado das línguas nativas brasileiras e as de origem indígena, as línguas africanas são 'as mais determinantes para o fortalecimento da linguagem que percorre os quatro cantos do nosso país'.  Ainda de acordo com Frei David, a resistência dos idiomas africanos no Brasil se deve, especialmente, às religiões de matrizes africanas que valorizam, retomam e trabalham a linguagem.

Para isso, os terreiros de Candomblé e Batuque atuam como verdadeiros guardiões destas culturas. Especialmente no Brasil, um país fundado por meio da escravidão e que até hoje não se reconhece como uma nação negra, a existência e resistência dessas religiões é fundamental para que se mantenha viva a memória ancestral desses povos!

Dentro dos terreiros - onde tudo o que se fala é reza, quer a sério, quer por diversão -, é muito comum as pessoas utilizarem palavras em iorubá em meio às frases em português para conversarem. Olha só:

- Agô (com licença), minha mãe.
- Ago iê (licença permitida / pode entrar), minha filha. O que precisa?
- As egbomis (irmãs mais velhas) avisaram que o ajeum (comida) está pronta. Eu provei e ficou odara (bom / gostoso).

No Brasil, a cultura do povo negro está presente em todo lugar. Curioso, porém, destacar dois estados tão distintos, um ao sul e outro ao nordeste do país: Bahia e Rio Grande do Sul. Em Salvador, capital baiana, existem até hoje em funcionamento as Casas de Candomblé mais antigas do país, algumas delas fundadas durante o século XVIII. Já no outro lado do país, mesmo com a intensa colonização europeia, os dados do último censo apontam que a capital gaúcha Porto Alegre e cidades do entorno são as que têm maior número de afro religiosos declarados no Brasil.

Outro ponto de destaque é que, no Rio de Janeiro, o idioma Iorubá foi considerado patrimônio imaterial do estado, em consonância com outras ações afirmativas que buscam impedir o crescimento do preconceito religioso que persegue as religiões de matriz africana.

Nesse sentido, o livro Vamos falar Yorùbá?, do professor e pesquisador Fernandez Portugal Filho, lançado pela Arole Cultural em setembro desse ano, é um resgate do idioma falado em grande parte das religiões de matriz africana em todo o Brasil e da relação humano-divindade, registrando o aprendizado do idioma sagrado dos Orixás como ferramenta de diálogo intercultural. O livro Vamos falar Yorùbá? traz ainda áudio-aulas para a prática da pronúncia e é um guia seguro para o aprendizado deste idioma, desde os conceitos iniciais das flexões verbais até as complexidades de sua gramática, acompanhado por um minidicionário e caderno de exercícios.

Além dele, um dos mais recentes lançamentos da Arole Cultural é o livro Não Somos Filhos sem Pais, do historiador, teólogo e babalorixá Hendrix Silveira - primeiro babalorixá doutor em teologia no país. Através da pesquisa e das vivências do autor e de seus entrevistados nos «Terreiros de Nação» - nome dado aos templos religiosos de Batuque -, Não Somos Filhos sem Pais busca compreender, atribuir sentido e propósito aos rituais dessa tradição, desde suas origens africanas até os tempos atuais, trazendo à luz a perseguição histórica engendrada pelo racismo e colonialismo branco-europeu em terras gaúchas.

E não menos importante, em parceria com a Fundação Pierre Verger, a editora ainda anunciou o lançamento de Casa de Oxumarê: os cânticos que encantaram Pierre Verger. O livro narra a epopeia de uma tradicional família de santo com origens no século XVII e que adentra o século XXI mantendo a mesma dignidade dos seus ancestrais no culto às divindades africanas. Suas memórias em forma de cânticos - registrados em gravações feitas por Pierre Verger em 1958 e que podem ser ouvidas pelos leitores do livro - são de todos aqueles que emprestaram a voz e as mãos para, em uníssono, louvar os Voduns e os Orixás segundo a tradição do nosso canto e do nosso toque sagrado.

Ações como o lançamento desses livros são importantes para que a memória do povo negro, suas línguas e seus costumes sejam preservados, honrados e lembrados. Ainda assim, sabemos que estes são pequenos passos de uma longa jornada, para a qual convidamos você, leitor, a trilhar conosco!

Fontes:
https://pt.babbel.com/pt/magazine/quais-as-linguas-africanas-mais-populares-no-brasil
https://pt.babbel.com/pt/magazine/15-palavras-do-dia-a-dia-dos-brasileiros-que-sao-herancas-africanas/
https://primeirosnegros.com/2018/02/africanos-os-primeiros-na-escrita/
https://www.hypeness.com.br/2018/09/a-partir-de-agora-o-idioma-ioruba-e-patrimonio-imaterial-do-rio

Ilustração de capa: Moisés Gomes

Texto originalmente publicado em: https://www.diegodeoxossi.com.br/home/a-influencia-dos-idiomas-africanos-na-lingua-portuguesa-e-no-brasil

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